sexta-feira, 18 de maio de 2012

Cheiros

Veio o cheiro do crepúsculo, do frio no final de maio, do sol dizendo adeus. Veio o cheiro das flores mortificadas, das luzes sendo acesas, das mariposas voejando, veio o cheiro desse último dia em que minha alma calou-se por horas. Chorou muda. Eu entorpeci meus olhos de lágrimas perfumadas, de um odor pouco adocicado. Essa brisa trouxe cheiros que não queria cheirar. Quem dera fechar os olhos e nariz, adormecer por uma noite e cavalgar nas nuvens de dias tão sofridos, olhar lá de cima, a decadência de esperança. Está cinzento, eu sinto o cheiro das cores e ouço uma melodia, uma voz. Tão dantesca tarde de outono, tão triste sepultamento. Tão aterrorizante esse tempo que voa. 
Veio-me um cheiro de passado, de futuro, e eu não consigo enxergar o presente, não enxergo faz um tempo. Ceguei-me por culpa das borrascas que tanto me amedrontaram, pelo frio arrepiante, pela inocência de uma criança que chora. Pois não quero enxergar o sofrimento de almas são puras, as asas quebradas de um pássaro novo, o borbulhar de pesadelo na superfície de um dia de sol. Me deixe cega, roube meu olfato. Meus alicerces não resistiram ao cheiro de primavera morta, nem de inverno passado, não me deixe sentir o gosto do outono. Tempo, tempo, tempo, autor de toda essa melancolia e pesar, por que voejas tão rapidamente? Me tortura essa nostalgia tiritante que vai e volta, durante esses dias, essa época de pranto, esse cheiro de dor. 
Minha alma se imbuiu de tempo, de dor, de cheiro, de passado, de todas essas narrativas torturantes. Perdeu o hábito de amar, e perdoar. Minha alma cansou dessas dardejadas dolorosas de anos corridos e décadas trancafiadas em mármore. Veio o cheiro de lassitude, e esse meu refúgio estancou no passado. Veio o cheiro de noite trovejante, cheiro de céu escuro amarelado, o papel encolheu-se e eu cansei de escrever. Vou adormecer e sentir cheiros de mim.

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