Ela tinha a pele calma, cinza, cinzenta, com um tom de
saudade, que todos nós esquecemos a nota e quando toca a melodia nos faz
chorar, esse tom de sorriso caído, acostumados pelos cantos nos olhos escuros,
cinzentos. Havia um pouco de medo em algum lugar de seu rosto, nos cílios
pesados ou nas mãos trêmulas que se encolhiam uma sobre as outras enquanto falava,
e declamava sobre a vida, sobre sua pessoa. E ensinava os outros, a saber,
sentir saudade e não sentir rancor de ser pequena, de se sentir pequena diante
da história de vida, das quedas e do abismo imenso de algum amor que se foi,
faleceu e ardeu em alguma lágrima salgada que se esparramou nos lençóis. Esses
lençóis em que se afaga todas as noite e busca algum sonho na manhã seguinte. Enquanto
toma café e meche a colher, faz barulho nas paredes da xícara e as paredes da
barriga querem quebrar-se para libertar as borboletas que ainda restam pelo
tempo, lembrou-se de um amor perdido. O adocicado do leite a faz querer fugir,
correr, por não ter mais aquela doçura, aquele querer viver junto com as águas
do riacho, agora se virou em tempestade e não sabe enxergar nos dias de sol.
Tinha uma ponta de sorriso na bochecha do lado esquerdo,
enquanto no direito temia em querer viver de novo. Algumas sardas do rosto
ainda visíveis expressavam algum temor por ter as mãos tão pequenas e não saber
segurar o mundo, pois ninguém nunca lhe disse que não precisava segurá-lo
inteiro. Ninguém disse que o escafandro às vezes quebra, racha e as rachaduras
são cicatrizáveis, ninguém também a quis segurar no colo e curá-la.
Mas minha criança que já viveu tanto, minha menina da pele
clara e calma, não chore pelo dia cinzento, veja como ficam lindos os galhos no
topo das árvores, observe as pombas nos prédios altos. Escute o canto da coruja
à noite, e deixa esse perfume com cheiro de nostalgia espalhar-se, não prenda
seus desapontamentos, eles ficam com uns traços lindos no seu rosto. Deixe seu
sorriso meio torto, meio bobo, estampar seus sonhos na beira do abraço de
alguém querido, e exale o amor, o resto de amor e os respingos de outros amores
que tiveste.
Minha menina de pele
cinza, não precisa segurar o mundo inteiro, há sempre outras mãos.
Obrigada Amanda Souza. Me mostrou outro sentido da minha vida.
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