A linha verde do muro confundia-se com as folhas de
laranjeiras, no alto, no longe, no horizonte. E aquele verde confundia-se com a
cor dos olhos, com a cor do céu quando está para cair chuva e trovejar musgos.
As linhas confundiam-se e iam se trocando, ora eram muros ora eram folhas, e
por ora invadiam a janela. As linhas conquistavam o papel, trocavam a tinta
preta pelo verde, mesma cor do muro, e me deixavam fria, como pedra, como
parede. E me deixavam a desejar, a pensar, o quanto deixei passar, o quanto
chorei e o quanto trovejei até reescrever, até convidar essas linhas verdes e
pretas para virem até minhas mãos, até os cílios! O quanto molhei esses até
deixar de sentir e passar a verbalizar, a ouvir o melro e a deixar que a
andorinhas fizessem verão para mim, fizessem linhas no céu, esverdeadas e
escuras.
Ah, quanta dor senti até poetizar, até voltar ao papel,
quanta dor nesse último mês, e nessa última década devo ter ouvido, deve ter
passado por mim. Quando gente desalmada e quanta gente pedindo palavra, quanto
orvalho já caiu. Quão gélidas ficaram minhas mãos até voltarem a sentir a
textura ímpar de um papel vazio cheio de vago sentimento!
E as linhas voltaram a
confundir-se, verde, preta, verde, preta, verde, preta...
E eu voltei para mim, depois de tanto doer, tanto
amedrontar, tanto prantear, tanto lamentar, voltei, e reescrevi meu nome, no
final da folha. Sem linha, sem outras vizinhas, sem outro nome pra
confundir-se, basta a confusão em si só,
basta o caos, duas borboletas em um casulo somente, dois céu num só mundo. E o
casulo rebentou, uma borboleta voejou, a outra tremelicou e morreu, confundiram-se
as linhas de suas asas. E eu confundo os olhos, confundo as mãos e os nomes.
O muro continua verde, embora pareça agora mais claro depois
de alguns segundos, ou talvez mais escuro depois do temporal. E as folhas já
estavam amareladas, não eram mais verdes, tomavam um tom meio envelhecido, meio
torto e eu rabisquei tanto que não sabia distinguir linhas de outras formas.
Nem sabia eu que iria falar sobre linhas, eu tão bibliobílica poderia narrar o
cheiro dos livros velhos, ou novos, mas não soube distinguir. Está tudo muito
esfumaçado, sombrio e nublado, distorço linhas cordiformes, e o coração se
desfez em milésimos. Um lamento é confundir a linha do horizonte com um muro
velho esverdeado e mal pintado!
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