domingo, 16 de junho de 2013

A linha do muro

A linha verde do muro confundia-se com as folhas de laranjeiras, no alto, no longe, no horizonte. E aquele verde confundia-se com a cor dos olhos, com a cor do céu quando está para cair chuva e trovejar musgos. As linhas confundiam-se e iam se trocando, ora eram muros ora eram folhas, e por ora invadiam a janela. As linhas conquistavam o papel, trocavam a tinta preta pelo verde, mesma cor do muro, e me deixavam fria, como pedra, como parede. E me deixavam a desejar, a pensar, o quanto deixei passar, o quanto chorei e o quanto trovejei até reescrever, até convidar essas linhas verdes e pretas para virem até minhas mãos, até os cílios! O quanto molhei esses até deixar de sentir e passar a verbalizar, a ouvir o melro e a deixar que a andorinhas fizessem verão para mim, fizessem linhas no céu, esverdeadas e escuras.
Ah, quanta dor senti até poetizar, até voltar ao papel, quanta dor nesse último mês, e nessa última década devo ter ouvido, deve ter passado por mim. Quando gente desalmada e quanta gente pedindo palavra, quanto orvalho já caiu. Quão gélidas ficaram minhas mãos até voltarem a sentir a textura ímpar de um papel vazio cheio de vago sentimento!
E as linhas voltaram a confundir-se, verde, preta, verde, preta, verde, preta...
E eu voltei para mim, depois de tanto doer, tanto amedrontar, tanto prantear, tanto lamentar, voltei, e reescrevi meu nome, no final da folha. Sem linha, sem outras vizinhas, sem outro nome pra confundir-se, basta a confusão  em si só, basta o caos, duas borboletas em um casulo somente, dois céu num só mundo. E o casulo rebentou, uma borboleta voejou, a outra tremelicou e morreu, confundiram-se as linhas de suas asas. E eu confundo os olhos, confundo as mãos e os nomes.
O muro continua verde, embora pareça agora mais claro depois de alguns segundos, ou talvez mais escuro depois do temporal. E as folhas já estavam amareladas, não eram mais verdes, tomavam um tom meio envelhecido, meio torto e eu rabisquei tanto que não sabia distinguir linhas de outras formas. Nem sabia eu que iria falar sobre linhas, eu tão bibliobílica poderia narrar o cheiro dos livros velhos, ou novos, mas não soube distinguir. Está tudo muito esfumaçado, sombrio e nublado, distorço linhas cordiformes, e o coração se desfez em milésimos. Um lamento é confundir a linha do horizonte com um muro velho esverdeado e mal pintado!

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