Caído pelo rosto, era o véu, meio transparente, cor dos
olhos que mentem sabe? Meio torto e com a borda amassada, pois ela não parava
de sorrir, e de cultivar os pontos minúsculos e quase fechados que inteiravam o
véu, e este guardava o desejo.
Não era um casamento, de longe fosse uma cerimônia, mas era o seu, o grande evento sobre como ela contou à saudade que estava viva...
Tapava os pulsos, eram os panos, vários panos, sobre os pés e mãos - sentia mais frio nas pequeninas mãos que tanto carregavam e aplaudiram as flores murchas se reabrindo no inverno. Fazia tão frio! A cada orvalhada usava os mesmos panos para limpar as lágrimas de uma noite pra outra. Duma manhã solitária quase que não movimentada, meio que sepultada lá pelas 3 da tarde, era quando esquecia o dia e aproveitava alguma inspiração para adormecer até a noite, para pôr o véu e contemplar seu rosto no espelho. Tão bela quando havia o véu em sua face, escondendo e resguardando as cicatrizes – linhas dos olhos e do sorriso – que receava qualquer ponta de luz que viesse em direção a sua retina. Ah, tão bela era a cor dos olhos dela, não vê-los diante do espelho era uma lástima. E deixava as cores sóbrias e não falantes verdes das paredes transbordarem nos cílios e taparem sua boca, não declamava e não sonhava, jamais haveria de contar!
E contou, com o véu na frente do espelho, com os pés sobre
os panos agora, gritou para si e para todas as outras portas da casa que
quisessem ouvir, e estas se fecharam, uma a uma, deixou-se as velas acenderem e
esperarem pela madrugada. Para a cerimônia. Não, na verdade não, não queria uma
cerimônia, era um apelo, puro e enfeitado com rosas lilás.
Eu vivo mais do que
isso, saudade, vivo mais sobre esses véus que tu tanto insistes para que as
curvas debaixo dos olhos não te denunciem!
Nenhum comentário:
Postar um comentário