sexta-feira, 11 de julho de 2014

Fuga

Tentaste rasgar todos os mapas, todos os pergaminhos, tentaste queimá-los, por quê?

Não havia mais necessidade de tempestade, tal leveza que tanto demorei a conseguir não vale o risco de perder o eixo novamente. De perder meus olhos da linha do horizonte, por ora, não a confundi mais com a linha do muro, naqueles tempos de morte e medo. Não guardarei nenhum caminho de mim que me levaria a qualquer ponta de dor, de desespero, de lembranças tortuosas, nem de amor. Porque todo meu amor é turvo e trepidado.

Não há sentimento que não seja turvo, já é difícil enxergar à noite, por que teimas em enxergar na névoa de dentro da gente?

Esta é a inquietação. Não há névoa, não há escuridão. Eu vejo claramente todas as minusciosidades em que guardo, todas as memórias trancafiadas e arranhadas pelos tombos, estão sob a luz do não esquecimento. E eu relembro, e me despenco em rochas, até me levarem para as ondas turbulentas. E eu caio em desespero de não esquecer, e de entender quando amo e quando não o faço. Quando sinto saudade e quando não a sinto. É algo perturbador ver cada caminho ínfimo para cada ponta das espadas que tanto lutei para esquecer, para deixar, para tal perturbação íntima não me atingir na superfície dos olhos. Para não relembrar cada caminho que me leva ao sufocamento de quase morte. Os perfumes que me apaixonei no passado se tornam éter que me matam quase que inteira quando adentro caminhos atrás do peito, guardador de meus medos e apaixonadas tempestade são os mesmos que me atiram contra os paredões de mim. Um homicídio no íntimo da gente.
É um lugar, ou cheiro, ou voz, mas é algo de que fujo. E eu não posso rasgar algo assim, a não ser queimar os caminhos e deixa-lo no fundo, nas paredes de mim, nos cantos da boca, atrás dos cílios, dentro. Escondido. Para não desfigurar meu equilibro. Não me importar ser feliz ou triste, ou apaixonada ou fria. Importa o vidro com a água do mar gigantesco, parada, calma, sem uma onda, uma ponta de quebradiça, este vidro que guardo é meu espelho do presente. Calmo, parado, sem transtornos sentimentais de não saber amar ou não saber viver. Porque eu não sei viver com lembranças tão vivas, tão teimosas e mais fortes que eu.

E então não sabes lidar com sentimentos que movem, fisicamente, e nos levam de nossa calmaria?


Não. Nunca soube.

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