segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A décima terceira estação

Eram verdes os olhos de quem me ensinou a amar, e quem me fez questionar todas as possíveis barreiras que poderiam existir entre o tempo e o infinito.
Porque nunca foi minha a vontade de querer, sempre tua, foram tuas palavras que deixaram a minha boca escancarada diante de tanta paixão e meu medo na ponta da língua. Houve medo. Muita temeridade e dúvidas. Houve negação e mentiras. Houve flores rosa e invernos inversos, pois dentro da gente sempre foi quente.
Aquele frio na barriga com borboletas agitadas trouxe tudo de ti até mim, como as ondas chegam ao mar, e quem recuou fui eu. De uma cor alaranjada veio a lembrança do que era, e eu já não soube lidar com o desbotamento da pele. Mudou.
As estações seguiram o plano delas, doze estações, e na décima terceira houve outros olhos e outros sorrisos. E outros medos concretizaram-se. 

Chegou a primavera e tu sabes, amor, que eu nunca soube endereçar cartas. Mas desde meu último epílogo tem sido assim: nomes, ruas e cheiros bem definidos, mas nada decidido.
Porque é tanto odor, tanto perfume que se misturou o da rosa com a orquídea amarela.
Tão belas flores amarelas que esconderam nossos beijos desse último domingo.
Está tudo muito sufocado e ainda dolorido desde o último outono retrasado. Ainda há muita fumaça mal apagada e fogo úmido.
Aperto as mãos contra o rosto e fecho os olhos num ímpeto de não deixar meus cílios denunciarem a tristeza de não saber as cores da primavera. Porque eu nunca gostei de estações coloridas. E o dia hoje foi cinza, e em cada gota de chuva havia outros olhos e outras cores mais escuras me dizendo para não ter medo. E só o que eu fiz foi me deixar molhar.

Eram escuros os olhos de quem deixou de ser, simplesmente. Houve um vazio, papel em branco, palavras sórdidas. E eu desaprendi a escrever.
Perdoa-me, amor, pela confusão, haverá outros invernos que me trarão de volta, mas hoje a cor amarela do fim da tarde me espantou. 

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