Estou com vontade, desejo, ardência, quero rabiscar as paredes escuras que montei ao redor da janela, pincelar de tinta branca e choramingar. Umedecer as palavras dardejadas no breu, e acinzentar, com um tom de céu pra chover. E deixar nevar, ver os cacos de vidro ao chão, pela pedra jogada a culpa e sofrimento do inocente. Ver o gelo formar pequenas estrelas no fundo da parede preta, e desenhar, meus olhos. Tão pequeno o grão de sal que vive no fundo da melancolia que desceu água abaixo. No fundo do mar.
Vou pintar, reescrever poemas trágicos e desenhar esperança naufragada. Rabiscar nomes e meu codinome, ânsia. Pois quero viver, sou ansiosa pela noite, pela lua, pelas estrelas, pelo passado. E talvez por essa minha fissura de correr, não saio do lugar, roto em volta de meus pequenos pés, apago o que queria relatar, e engulo toda a fúria, e a verdade. Não julgo os calos nos dedos, nem a caligrafia errante, pois sou o tropeço, o buraco na estrada. A tinta borrada no quadro. E meu porta-retrato é negro, com minhas pinceladas cor de mármore. "E minto, não sou poeta, sou apenas uma escritora de melancolia", estas palavras de outrora me assombram, mas não há nada mais vero. Também não sou pintora, só pincelo quadros negros no desejo de virar noite.
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