Veja, o vidro da janela lateral trincou, passei os dedos, me
cortei. E sabe, pode se escrever com sangue também, os poemas não precisam ser
feitos de pétalas. Coração de gelo também bate. E o gelo derrete. A água não
precisa de mais quatro graus para virar vapor, e eu viro pó a cada monossílaba
surrada. Pois eu estou só nadando contra a correnteza, encontro-me nesse ímpeto
de ver as mórbidas paisagens e admirar as trovoadas. Venha meu velho outubro,
fazer-me companhia? E me permita atormentar os dias floridos de
felicidade, impregnar a sala com música clássica, essa mesma que soluço, que lamento
que dou pêsames.
Então, estou só borbulhando mártir, em alto mar, ao abismo.
Soterrada, e não há areia, apenas facas e pedras e dor. Os arranhões machucam,
mas sabe que, a falta do verbo mata? E o verbo seria amar, saber, ser. Ser eu,
que difamação, afundar-se em mármore envelhecido e esbranquiçado. Ser lugar sem
sol, flor sem pólen, borboleta sem casulo, mergulhar sem escafandro qualquer.
Esse ser me afogou, ser só abaixo da linha do horizonte.
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