quinta-feira, 22 de março de 2012

Deixe-me morrer

Só estou abaixo da linha do horizonte, onde o sol não se encontra sabe? Só estou remoendo tantas roupas mal lavadas que não cabem mais lamúrias e saudade em meu armário. Pois nem sinto saudade, já está ultrapassada essa nostalgia, as nuvens são escuras e os algodões doces, meu bem, estão salgados o adocicado derreteu na chama quente que queima entre meus olhos e as maçãs do rosto. Liberte-me para arder.
Veja, o vidro da janela lateral trincou, passei os dedos, me cortei. E sabe, pode se escrever com sangue também, os poemas não precisam ser feitos de pétalas. Coração de gelo também bate. E o gelo derrete. A água não precisa de mais quatro graus para virar vapor, e eu viro pó a cada monossílaba surrada. Pois eu estou só nadando contra a correnteza, encontro-me nesse ímpeto de ver as mórbidas paisagens e admirar as trovoadas. Venha meu velho outubro, fazer-me companhia?  E me permita atormentar os dias floridos de felicidade, impregnar a sala com música clássica, essa mesma que soluço, que lamento que dou pêsames. 
Então, estou só borbulhando mártir, em alto mar, ao abismo. Soterrada, e não há areia, apenas facas e pedras e dor. Os arranhões machucam, mas sabe que, a falta do verbo mata? E o verbo seria amar, saber, ser. Ser eu, que difamação, afundar-se em mármore envelhecido e esbranquiçado. Ser lugar sem sol, flor sem pólen, borboleta sem casulo, mergulhar sem escafandro qualquer. Esse ser me afogou, ser só abaixo da linha do horizonte.

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