Deixe este rei falecer, desapegar de sua desdita tão
dolorosa, deixei-o morrer. E morreu, adormece entre o céu e o mar, estas linhas
tão tortas que fantasiamos tanto quanto o amor enigmático que pensamos sentir.
Agora morre rei de dores, o solar dos cisnes já não tem mais cisnes, e meu
coração já não tem mais paixão por essa vida. Por ora leve-me junto com o rei,
faça-me de rainha do submundo que tanto conheço, pois sou íntima desses
pesadelos efêmeros e do plúmbeo vale abaixo. E deixe-me enterrada em minha
cama, aos lençóis marejados de pleno amor pelas folhas secas do outono
porvindouro.
Há
muito que me suicidei nessas mórbidas caligrafias, pois minha caligrafia sofre
de metamorfoses, mudou o pincel não tem mais afinidade com minha mão, e meus
olhos são sensíveis à luz. Deixe o portão entreaberto, apague as velas. Perco a
razão entre as águas do lago, onde eu fora jogada por outrora. Enquanto morria,
meus olhos cegavam o coração da rainha que veio ao mundo. Eu, rainha. E esta
rainha que dialoguei por momentos inóspitos, não me reconhece mais, ah... Minha
cara, quem diria que a morte de uma pomba viria ser tão melancólica para seus
dias. Quem diria que o rei morreria pelo desgosto de uma consciência dada como
castigo, e que as razões pelas quais amo as flores, são as mesmas por que a
chuva pinga em mim. E vêm em intervalos frenéticos essa chuvarada como na manhã
me que o rei faleceu. A tempestade o desapontou.
Deixaremos
então, o rei com seus escrúpulos, e ficaremos com os nossos. Eu, rainha, vou
afundar pouco mais nas águas límpidas durante a noite. Para que os raios de sol
em complô com a água não me cegue, já basta esse amor cegar-me. E o amor pelo
rei, morreu junto a seu coração, a linha reta do horizonte que traça nossa
monotonia, entortou-se enquanto traçava paixão, e o amor é este círculo,
pêndulo que oscila entre os olhos lacrimejantes e sonolentos, enquanto beijamos
de boa noite. O rei morreu na madrugada passada, graças à sua consciência
divina que tortura, e razão ninguém sabe, mas havia um bilhete pedindo perdão.
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