A sirene agonizava, aturdia como o grito surdo de quem morreu e não aceita, e de quem quer morrer e não quer amar. Eu escuto os seus gritos, escuto suas preces, mas hoje a sirene passou pela minha rua, e deixou-me atordoada. Eu orei por todos esses outonos em seu túmulo e recriei poemas, desenterrei esperanças todos os dias. Tumultuei salas já lotadas, e imbuí minha alma de quero-quero que assobiam melancolia, e cantam. Cantavam.
Hoje pela tarde, o sol queimou minha marmórea pele e ardeu, machucou, embora nem tenha derramado uma única lágrima. Pois elas já secaram, meu oceano infindo de ternura e candura já secou, nem uma gota a mais de perdão vai me fazer transbordar novamente. Nem uma taça a mais de "sinto muito" vai me embriagar a ponto de eu aceitar desculpas maltrapilhas vestidas humanamente de mentiras. Essas mentiras que todos contamos enquanto o orvalho da madrugada nem congelou com a neve que cobriu nossos ouvidos. Congelamos nossos escrúpulos adentro, e matamos qualquer ponta de boa índole que se remexia no caixão.
E a sirene oscilou novamente, aquela melodia aguda me fez arrepiar. Pobre alma carregada as pressas para reviver, remar, respirar. Pirar. Enlouquecer dentro da esbranquiçada caixa jogada aos rios. E a loucura me levou à principal cena, no ápice da peça que ensaio todo esse tempo, resolvi por fora o roteiro. Chega de ambulâncias, salva vidas, e massagem cardíaca. Meu coração está muito bem, obrigada, cor de rosa e dançante.
Nada de cerimônias, eu enterrei. Eu cavei a cova de todas essas estações em que passeamos de mãos dadas, mas as minhas são pequeninas em demasia para segurar todo o seu farto. E eu agradeço a sirene, ao som torturante desse silencio que não és mais mudo, por acordar-me nesta tarde. Deixei o som se esvair, eles perderam mais uma vida, e eu não vou reviver, nem respirar, nem reconstituir póstumas memórias. Nem perdoar, não mais. Compreender o falecimento é sereno, por ora... Mas compreender a morte da alma é desgraçante.
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