quarta-feira, 7 de março de 2012

Nosso tempo

Eu vejo nossa passagem, nossa ida, nosso tempo. O tempo que nós criamos e moldamos, ao ápice do inverno, na cena onde a estaca é cravada, escrevemos com sangue na ponta das penas, o que temos agora. O que adquirimos com os pequenos passos, atrás das rosas, das flores rosa, no meio de folhas quebradas pelo outono. Pulamos muros e cruzamos barreiras. E todos estavam lá para aplaudir, jogar pedras, e chorar. Nós deixamos a lamúria para eles, pois só comemoramos. 
Eu jamais nessa estação de que é feita a vida, tinha visto tantas outras se passarem diante de meus olhos, de teus olhos. Porque eu avisto o pôr do sol, sem nunca tê-lo sabido, nem ver a lua cair, ou emergir. Nunca compreendi o gelo imenso flutuando em meu coração, e aos poucos derreteu-se. Vês estas lágrimas? O soluçar, balbuciando ímpetos de fuga, ausência de sonhos? É todo meu iceberg, transbordando, derretendo, quente. E arde, machuca, dói, mas quando o sol morre, a lua ainda reflete as borboletas pousando sobre meu coração de gelo. 
Este coração, que você descongelou, apalpou e trancafiou, e ele não congelará nunca mais. E toda essa melosidade que você despejou esse açúcar que viajou com chuvas e pingou sobre meus olhos, me adocicou. Sou aquela nuvem alaranjada no crepúsculo melancólico das seis horas. Fui vento e tempestade, amanhecer, eclipse, mas nunca fora pôr de sol. Somente suas mãos e olhos me fizeram poente. Esse seus idílios de compaixão que me foram doados, sua ternura e o verde de sua alma, me fizeram cor de rosa. 
E toda sua doçura, todo seu adorado vértice de mocinho e ponta de malandro, o faz renascer para mim a cada dia. Amar, trovejar, acariciar. Então você amanhece, e anoitece, madruga em cada curva de meu rosto, cada silenciosa palavra. Vive em mim. E o tempo, o rodar do mundo já não nos espanta, apenas nos encantamos com as despedidas nos bancos de praça, azuis celestes voejando e selando na aura do nosso tempo. Eterno. Nossa eternidade, que se cumpri a cada piscar de olhos, enquanto os pisco, os fecho e me encontro aprumada em seus braços. A cada marejar de duas índoles a extremos do mundo, a cada singelo sorriso de canto, se cumpri. O que nunca havia sentindo, solidificou-se em papel marche, com seu nome, seu tempo, nosso prólogo.

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