sábado, 3 de março de 2012

Tempestade castanha, areia azulada

Não me culpe por desenhar na areia, gravar nomes e promessas, não me julgue por descrever tais passagens de meus livros envelhecidos, nem me culpe pela poeira na estante, e pela jóias trancafiadas. Pois não tenho o porque de brilhar, nem o porquê de arrumar-me para caminhar nas calçadas imundas. Nunca precisei de alianças e melindrosas para cobrir meus olhos cansados e pedindo por mais palavras infindáveis de um âmago tão desconhecido. Nunca compreendi essa minha solidão tão apaixonante em dias invernais, ou nessas estações coloridas. Prefiro dar flores a mim mesma do que enviar cartões de natal. E também, não me julgue pelos arranhões, não me culpe pelos tropeços, são os erros que me moldam, e esse medo porvindouro que me faz correr, e desandar a receita escrita. Pois eu não sei ler palavras cegas, nem interpretar versos livres, não sei explicar vaso sem flores, e copo sem água. Prefiro que o copo esteja com café, pouco açúcar, por favor, prefiro sentir o amargo em minha boca, já que o provo no coração por outrora.
Cuidado para não derrubar as flores na janela, nem espantar os pássaros, o canto deles me acorda dos sonhos em que vivo presa. Deixe o noturno choramingar, e outros anunciarem o dia. Não julgue as andorinhas que não fazem verão, pois nem eu que escrevo sei poetizar. Não me culpe por maravilhar-me com a bela adormecida, ou relatar desamores e sonhos caídos. Pois eu faço de pesadelos, inverno, e das partidas, lirismo.
Deixei meu cabelos sujos de areia, a mesma em que escrevi nomes, quantos nomes me vêm na ponta da lingua, e quantas mortes sepultei. Pois aprendi de um jeito tão dantesco, me desapegar, depois de tanto correr e machucar as costas carregando todo esse mundo, esqueci-me de transbordar o copo, e o copo esqueceu de pingar. Bebo somente em taças! Aprecio somente os amores-perfeitos, e prefiro a areia azulada, molhada da chuva, e as folhas gotejadas de tempestade castanha, enquanto deixo meus olhos para as nuvens. E não me culpe pela cor da tempestade, pois, meus olhos tem o negro da noite, e o cinza do dia sempre os iluminou.

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