segunda-feira, 23 de abril de 2012


Esta noite dialoguei com as paredes, trancafiei o amor dentro do armário, mas o cheiro de verão passado invadiu o refúgio. Por outrora eu sorria primavera e colhia flores, arranquei-lhe os botões. E a noite esfriou, estas vozes ecoavam medo e o tagarelar da coruja costumeira em minha janela estonteou os pensamentos. Pássaro perdido esse meu ímpeto masoquista, meio gelo, meio pedra. O diálogo impregnou a cama, os lençóis sujos enrolaram, enlaçaram, toda a minha vontade de amanhecer. E madruguei.
Guardei meus relicários de eufemismo e delicadeza, deixei a melancolia ao mármore. Mas os gritos estridentes cerraram meus olhos, a caneta ardeu ao relatar no papel, chore, corra, o amor trancou-se no guarda-roupa. E eu virei mofo, enfraqueci no frio. E o amor retumbou pela orquestra que morria. O diálogo ensurdeceu. Mudo. Para onde voejou a coruja? Fugi, trancafiei-me no armário com o amor falecido. 

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