Capturei as luzes da noite, o asfalto brilhava como meus olhos enquanto a chuva molhava minhas mãos, e a formidável noite se apresentava como boa senhora. Eu choramingo toda vez que avisto as estrelas, tão solitárias, tão perto do abismo infindo de emoções vagas e o vazio repugnante, tão eu. E eu quero trancafiar nesse quiriri toda minha fadiga de ser, quero chover, quero melancolia, quero as gotas de chuva dependuradas nas folhas esverdeadas. Porque o verde despedaçou, minhas mãos roubaram o brilho da noite, e eu tranquei a lua. Deixei na minha cabeceira, para adormecer com o crepúsculo e guardar teu olhar sombrio.
Me fiz de criança, quando por outrora capturei as luzes que ofuscavam, os pequenos vaga-lumes exalavam uma dor efêmera e eu já não chorava, apenas olhava a tempestade invadir as janelas. Os vidros quebradiços não seguravam meus medos e meus sonhos tornavam-se reais, as folhas amareladas viviam e o sol já era meu... E não és mais meu, não tenho mais a minha lua cintilante, onde estão as rosas molhadas e as folhas esvoaçantes? Onde está a criança feita de cacos de vidro? E o seu coração de cristal? Foi lançada as borrascas, pois sempre pertenceu à tempestade noturna, e nunca houve brilho maior em seus olhos. Morreu ao olhar para as estrelas.
E para levar ao seu mármore guardei as rosas mortas, a noite ofuscante, e o robusto manto de desespero que a chuva despeja. Atirei pedras e guardei rancores de criança. E como criança não erro como estações passadas, não olho pra fora da janela, não sou criança. Sou a noite, sou a morte de uma alma tão ingênua quanto essa chuva com gosto de saudade. E como um anjo caído roubei a rua dos sete palmos abaixo de terra virgem, capturei as luzes da chuvarada, e a brisa gelada me despertou. Acordei com os pingos temerosos em minha janela, abri-a para me perfumar da manhã choramingante, e me esqueci... Não sei mais interpretar a chuva através da janela.
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