domingo, 8 de abril de 2012


O céu tomava uma cor ensanguentada, e as nuvens coravam-se por vergonha do lago abaixo, que refletia pureza e brilho que eu nunca havia visto. E eu chovia, morria, corria e sorria. Mas já não sorrio mais. Veja, o lago está transparente e derrama essa melancolia que veio com o abril, tão chuvoso e dantesco abril. O lago está cor de laranja tardezinha, mesma cor do pôr do sol. Coincidência eterna. Este relevo de torturas e maravilhas, que oscilam enquanto o sol morre. Tão bela morte. Que frieza desta noite deixar os pesadelos escancarados, como é eufórica a morte do astro maior, e dantesca seu velório na madrugada gritante. 
O lago estava escuro, seu contorno acompanhava a onda vermelha nuveada, e alaranjado jorrava dores e clamores. E eu vejo as gramíneas correndo e os pássaros batendo asas em desespero, como eu seguro o choro e prendo os pés ao chão firme. Força, garra, ansiedade. Essa ânsia de querer voejar e só sussurrar, de querer saber e só reconhecer, de querer chover e só pingar, de querer trovejar e só apedrejar. De querer se pôr e só morrer. E só faleço, só deixo, só aguardo. Nesse ímpeto de querer vivenciar e admirar, viro lago e só reflito, só fico meio cor de de laranja tardezinha, e morro. 
Porém eu sei ser lua, sei anoitecer, sei refletir a escuridão. Sei choramingar. Sei imbuir a água de culpa, para que a alma chove e lave. Porque minha cachoeira secou, pelo medo avulso do breu, pelo tiritar da pele ao mármore gélido. E minha alma está maltrapilha, não se purifica santo quebrado. E na beira do lago, o coração transformou-se em cor de cinza noitecer, congelou os olhos. Fraquejou o pulso, está escuro, está doendo. E virou lua, ao velório do sol, existiu em contorno do lago com a nuvem avermelhada, sangrou. E jogou-se, afundou no lago em busca do pôr do sol, da morte, da noite. Morreu sendo lua.

Nenhum comentário:

Postar um comentário