quinta-feira, 7 de junho de 2012

Folha

Que tenha a leveza de uma folha, saiba voejar como tal, e aprenda a suspirar as tempestades e ventanias, seja amarela, laranja, rosa e seca, seja folha de outono que atravessa invernos e tomba ao chão. Deixe-se gotejar e conserve os pingos de notalgia e saudade que ficam em sua superfície. Cresça os ramos, esqueça os tombos e seja amiga das flores, tantas flores, tantos perfumes, aprenda a desdenhar e amar. Seja folha colorida de primavera e ilumine os invernos, bata na janela em noites de tormenta e deixe a melancolia apresentar-se. Pois folhas são personagens de uma peça tão encantadoramente surpresa. Cheias de vida e morte, céu e terra, seja folha presa aos galhos ou pisoteada ao chão.
Mas tenha a timidez de uma folha de roseira, ou a ironia das folhas de primavera-outono que tanto enfeitam para sepultar-se aos nossos pés, tenha a leveza d’alma de uma folha, e seja esverdeada de prosperidade. Aprenda a nascer e morrer, voejar e viajar pelos vales dessa monotonia em que encontram-se os galhos secos e tristes. Tão solitários galhos e tão sofredoras folhas.
E sofremos, e imploramos, rasgamos o peito ao meio pelo perdão, e eu me tornei leve como folha. Uma folha de outono, sou cinzenta, laranja, talvez avermelhada mas nunca rosa. Pois perdi a timidez de voar, apenas arrasto-me e perdoo as outras folhas que de tão coloridas espantam-me galhos adentro. E os galhos que tantas vezes feriram-me, me suportam, e derrubam-me ao tombo mais ríspido no gélido chão. Sou folha que deixa os orvalhos secarem, ou congelarem nas geadas de sofridão. Deixo-os para darem-me brilho e para outros admirarem-me. “Veja que folha mais bela com as gotas de chuva da manhã iluminando-a”, mal sabem eles que estes orvalhos foram lágrimas que chorei e suspirei ao ápice do inverno.

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