sexta-feira, 6 de julho de 2012

Cruel e crua

Verdade. Verdade crua e nua, luzes fluorescentes, estrelas incandescentes, olhos tiritantes choramingam, onde estão as folhas de papel pegando fogo? Porque estes meus olhos ardem e nada acontece aos rascunhos da verdade sobre o amor? Que amor? Que sonhos? Que desejos? Se estes fossem tão reais estariam brilhando mesmo ao longe, mesmo na fumaça, mesmo na neblina, mesmo na tempestade. Mas são fracos, são relvas nascendo pela manhã e pegando frio, a noite inteira. E imploram para serem esquecidos, como as mesmas águas que passam pelos rios sujos e pela nossa alma impregnada de superstição e fatalidade. Corremos, trafegamos, mas nunca matamos o tempo, nunca lemos os livros até os finais nem interpretamos os olhos do outro.
Os rascunhos estão na lareira pegando fogo e o coração morre, falece a última flama de querer. De que adianta desejar e somente desejar? O amor platônico perde seu encanto quando deixa de ser secreto, e o sol morre ao anoitecer, quando a última vela que os anjos deixaram é apagada, o cheiro de fumaça deixa pingos de desesperança no quarto, e a janela está trancada. Não sei por que diabos a menina na calçada chora ao término do livro, nem porque a mulher cai aos prantos quando as rosas morrem, se cada estrela está lá para ser vista, mas nenhuma brilha fora da escuridão.
Mentira. Falácia oculta e cruel, peito inchado de martírio, as voltas do coração entorpecidas por alguma raiva amenizada pela chuva, olhos tiritantes, onde está o choro? O pranto e o grito de desespero? Dantescas noites em claro que passamos por almas vagas, não? E as estrelas morrem, o brilho falece, o choramingo recomeça, a menina tropeça, e o rascunho rasga. É uma tênue linha entre a verdade e a crueldade. 

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