Ah, se eu pudesse
tirar de ti algumas lágrimas pra pôr em meus olhos, se eu pudesse te ter aqui
em mim.
São quase duas ou três, mas foi na primeira hora que me
senti forte, nas outras vinte e três houve fraqueza, e então nada. Uma
escuridão que esclarece tudo: nada. Nada ouvi, nada procurei, apenas meus
óculos e um cigarro velho, que guarda algo de mim da estação passada, onde havia
mais vazio, mas um vazio preenchido e remexido na fumaça com perfume de alguém
que sorrira pela última vez. Agora os encontrei embaixo da mesa, jogados, e as
lentes me contaram o quanto eu escrevera quando estava triste, e o quanto havia
sido aplaudido meu roteiro, melancólico, cheio de lágrimas. E agora, que as
lágrimas secaram? Não há nada para transbordar. Desvencilhei de mim meu próprio
escafandro e agora o perdi nas retundas indecisões de dois dias.
São tantos números e inúmeras palavras que nem sei de mim,
aliás, há muito já não sabia, mas foi neste espelho que vi um reflexo sem
lágrimas, sem nada. Apenas no aguarde de algum orvalho, que seja, para virar o
copo, molhar os óculos e lavar as lentes: esquecer o que vi pra pensar no que
vivi.
És cheio de ti, aqui dentro, quando não vejo eu mesma, mas
nada de mim, nenhuma ponta, nenhum sinal de que ainda há algo trancafiado, que
eu escondi pra não perder e acabei perdendo, como uma saudade. Saudade essa que
eu queria curar, mas ao virar eu pego pra mim, pelo menos esta restou! Então
não há mais nada, há uma nostalgia e uns óculos que não ajuda: grau muito alto
de desesperança. E eu vou aprendendo no escuro a ver a clareza de mim, essa que
outrora talvez estivesse embaixo dos meus olhos, mas a teimosia se encarregou
de me tirar todo o reconhecimento. E agora sobrou um resto de mim, os óculos e
muita saudade!
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