sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

As mãos que não cabiam nos anéis

Fazia um frio errante, esses que trazem um suor nas mãos e toda vez que se respira arde. Não há frio que não cure uma dor inacabada, mas traz a gélida sensação que meus pés não cabem mais no mundo e minhas mãos não cabem mais nos anéis.
Telhas envelhecidas e amontoadas uma sobre a outra me diziam que a simetria era torta, e que o frio dilata todas as lágrimas e ressentimentos.
Que esse mesmo frio trouxe empoeiradas lembranças com cheiro de pétalas envelhecidas – aquelas mesmas pétalas da roseira branca em frete a janela da sua casa.
Pois é disso que se faz o vento cortante: cheiro de pétala velha e pele anestesiada. O frio, hoje, me lembra do prédio vasto e esverdeado em sua tristeza  que guardou cada esperando morta, num só suspiro se fez verde-hospital, na mesma época que trancafiou minhas lágrimas dilatadas com as suas mãos em minha face, mãos que já não cabiam nos seus anéis.

E os anéis foram distribuídos, uma a uma, em cada canto de uma dor sufocada pelo tempo que passou rápido demais. Foi tudo muito rápido. E em cada vez que voltara para me dizer que tudo iria passar, e que a roseira floresceria novamente, meu sorriso se acostumava novamente com o sol. Hoje, já está tudo florido, tenho novos anéis, mas o seu está guardado em veludo vermelho numa caixinha com cheiro de domingo.

Fazia muito frio naquela tarde, houve choro, gritos, risadas, houve muita coisa, só não ouvimos a sua fala. Era tudo muito branco e anestesiado, passos fortes sussurravam desespero e aceitamento, pois não há frio que não cale uma perda, a boca congela e os olhos secam.

Desculpe-me pela súbita lembrança, é que faz tempo que não vem me visitar, e eu sinto falta da rouquidão da sua risada. E desculpe-me por trazer toda a saudade aqui, ela não coube mais no meu quarto e eu não sabia mais sobre o que escrever. E tu sempre me incentivaste a escrever. O amor se torna tão corriqueiro que chega a ser cômico, assuntos gelados aparecem entre conversas sórdidas no sofá. E a tua poltrona ainda está vazia, mas agora com uma nova capa colorida, talvez para preencher o vazio que ficou. Está tudo já muito escuro e úmido, abafado, e o incômodo do verão passado já não pesa mais nas minhas costas. Só queria dizer-te que tudo realmente passou. O mundo já desceu de cima dos meus ombros e meus olhos estão leves. Mas hoje a noite me deu aquele velho aperto no peito por não ter ido no último fim de semana te visitar, o tempo passou rápido demais. Desculpe pelos sorrisos inoportunos, mas lembrei-me dos seus olhos pequenos pousando nos meus. Meus risos também passam rápido demais.

E eu nunca soube lidar com o passar dos anos, muito menos com o final de cada um deles, mas são tempos diferentes, opostos, e os anéis voltaram a caber em minhas mãos. 

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