Fazia
um frio errante, esses que trazem um suor nas mãos e toda vez que se respira
arde. Não há frio que não cure uma dor inacabada, mas traz a gélida sensação
que meus pés não cabem mais no mundo e minhas mãos não cabem mais nos anéis.
Telhas envelhecidas e amontoadas uma sobre a outra me diziam que a simetria era
torta, e que o frio dilata todas as lágrimas e ressentimentos.
Que esse mesmo frio trouxe empoeiradas lembranças com cheiro de pétalas
envelhecidas – aquelas mesmas pétalas da roseira branca em frete a janela da
sua casa.
Pois é disso que se faz o vento cortante: cheiro de pétala velha e pele
anestesiada. O frio, hoje, me lembra do prédio vasto e esverdeado em sua
tristeza que guardou cada esperando
morta, num só suspiro se fez verde-hospital, na mesma época que trancafiou
minhas lágrimas dilatadas com as suas mãos em minha face, mãos que já não
cabiam nos seus anéis.
E os anéis foram distribuídos, uma a uma, em cada canto de uma dor sufocada
pelo tempo que passou rápido demais. Foi tudo muito rápido. E em cada vez que
voltara para me dizer que tudo iria passar, e que a roseira floresceria
novamente, meu sorriso se acostumava novamente com o sol. Hoje, já está tudo
florido, tenho novos anéis, mas o seu está guardado em veludo vermelho numa
caixinha com cheiro de domingo.
Fazia muito frio naquela tarde, houve
choro, gritos, risadas, houve muita coisa, só não ouvimos a sua fala. Era tudo
muito branco e anestesiado, passos fortes sussurravam desespero e aceitamento,
pois não há frio que não cale uma perda, a boca congela e os olhos secam.
Desculpe-me pela súbita lembrança, é que faz tempo que não vem me visitar,
e eu sinto falta da rouquidão da sua risada. E desculpe-me por trazer toda a
saudade aqui, ela não coube mais no meu quarto e eu não sabia mais sobre o que
escrever. E tu sempre me incentivaste a escrever. O amor se torna tão
corriqueiro que chega a ser cômico, assuntos gelados aparecem entre conversas
sórdidas no sofá. E a tua poltrona ainda está vazia, mas agora com uma nova
capa colorida, talvez para preencher o vazio que ficou. Está tudo já muito
escuro e úmido, abafado, e o incômodo do verão passado já não pesa mais nas
minhas costas. Só queria dizer-te que tudo realmente passou. O mundo já desceu
de cima dos meus ombros e meus olhos estão leves. Mas hoje a noite me deu
aquele velho aperto no peito por não ter ido no último fim de semana te visitar,
o tempo passou rápido demais. Desculpe pelos sorrisos inoportunos, mas
lembrei-me dos seus olhos pequenos pousando nos meus. Meus risos também passam
rápido demais.
E eu nunca soube lidar com o passar dos
anos, muito menos com o final de cada um deles, mas são tempos diferentes,
opostos, e os anéis voltaram a caber em minhas mãos.
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