Sobre nosso epílogo íntimo
Eu me ocupei de tantas coisas! Eu esperei acordar cedo um dia da semana passada
– que você sabe muito bem que eu odeio – apressada, para então olhar para os
vestígios verde-saudade que ainda estavam pelo quarto, pelas paredes, algumas
fotos tão visíveis e pesadas, e outros invisíveis, impregnados em cada fio de
cabelo seu que ainda está em algumas das minhas blusas. Apressada, então, eu
arranquei nossos rostos juntos, as cartas (que você nunca pôs a data), os
presentes e aquele urso que ganhei no nosso primeiro Natal juntos, e eu andei
com ele pela rua, super feliz, lembra?
Sim, eu também odeio lembrar tudo isso
ainda. E minha pele também não aguenta mais sentir o sal das lágrimas toda
vez que eu tomo um pouco de vinho e aí os sentimentos conversam entre si e eu
já estou muito embriagada para engolir o choro e sorrir.
Naquela manhã houve um vazio um tanto anestesiado, e eu imaginei fotos
rasgadas, presentes jogados no chão, gritaria e choro comigo mesma. Mas não
houve nada disso. Houve um silêncio ensurdecedor e cortante. Guardei tudo em
uma caixa de papelão, que ficou embaixo das gavetas no guarda-roupa. Toda vez
que eu vou me vestir, ela está lá, me olhando, pra relembrar que mesmo
guardado, empoeirado, apressado, o sentimento ainda está retumbando em cada canto
de mim.
Os dias se passaram e tudo parecia colorido, laranja, o outono chegou – que
você sabe, eu adoro – e algumas borboletas vieram me acariciar o rosto, dizendo
que tudo vai melhorar. Uma delas me lembrou de seus olhos e outra a cor do seu
cabelo. Eu sorri. Acredita nisso? Agora eu sorrio em vez de fechar a cara,
porque sorrir parece que disfarçando a dor pros outros, eu disfarço pra mim
mesma.
Só que as mariposas transbordam no meu quarto à noite, e a madrugada judia. De
manhã eu acordo sem saber por que há tantas lágrimas no travesseiro e eu estou
tão exausta. Não sabia que chorar de saudade cansava, e realmente cansa,
acabada comigo e meus olhos ficam caídos pelos cantos pelo resto do dia.
Mas então, meu amor, eu sei que você não vai ler isso, e que isso foge dos meus
padrões. Mas eu sempre fui feita de sentimento, a única forma que encontrei de
conversar contigo foi assim, entre os papéis velhos em branco que eu encontrei
embaixo da mesa. As mariposas estão fazendo barulho e se batendo contra a
janela, por que o quarto já está inundado de lembranças suas, e já não cabem
mais nada dentro dele, nem dentro de mim. Não sabia que o vazio ocupava tanto
espaço dentro da gente!
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