O sorriso ora abria-se
ora fechava-se, por que choras menina? Por que tanto escreves e pouco declamas?
Ora, pois relato, e gosto de minha caligrafia interpretando
meus olhos.
Mas declames menina,
diga para mim, o motivo por que tanto se calas?
O motivo é o cantar dos pássaros, o orvalho lustroso, o
desgosto infame, as borrascas à noite, a ternura pedindo espaço, o amor ferido,
e o asfalto negro com pontos brilhantes, o café frio com gotículas
borboleteando na orla, a morte da andorinha, o falecimento da esperança... Não
consigo falar sobre tais, não sei causar verbalmente, não sei admitir nem
omitir, sou ignorada pela minha voz e não escuto os outros tons. Sou errante,
não falante. Ou um ou outro.
Não há maneira de descrever o renascer de uma alma em
desespero dizendo seu choro, nem falando sua ânsia, somente escrevendo e
narrando o seu pranto e mórbido olhar. Não há gesto de ternura que justifique
uma palavra escrita em vão, ou relatada erroneamente, não há verbo falado que
interprete um amor partido ao meio, nem os orvalhos de uma manhã. Não já
palavra que datilografe a estação de outono, somente a escrita das folhas secas
e perdidas.
O céu plúmbeo não se pode manifestar-se através de uma
simples frase, ou de um suspiro mal dado. Ele se rascunha, se prontifica a ser
deixado em papel em branco, rabiscado, memorizado na lembrança de uma
escritora. E a escritora sou eu, a intérprete dos pássaros mortos sou eu, a
dona das palavras dardejadas ao mármore sou eu, sempre foi. Sou como o ponto
final de um texto que se apagou, a vírgula que paramos para respirar no meio do
conto e o espaço entre as palavras de um livro que não tem epílogo, nem
prólogo, nem capítulo. Sou o falecimento da noite, a beldade do crepúsculo. Sou
poeta datilógrafa.
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