sábado, 14 de julho de 2012

Poeta datilógrafa


O sorriso ora abria-se ora fechava-se, por que choras menina? Por que tanto escreves e pouco declamas?
Ora, pois relato, e gosto de minha caligrafia interpretando meus olhos.
Mas declames menina, diga para mim, o motivo por que tanto se calas?
O motivo é o cantar dos pássaros, o orvalho lustroso, o desgosto infame, as borrascas à noite, a ternura pedindo espaço, o amor ferido, e o asfalto negro com pontos brilhantes, o café frio com gotículas borboleteando na orla, a morte da andorinha, o falecimento da esperança... Não consigo falar sobre tais, não sei causar verbalmente, não sei admitir nem omitir, sou ignorada pela minha voz e não escuto os outros tons. Sou errante, não falante. Ou um ou outro.
Não há maneira de descrever o renascer de uma alma em desespero dizendo seu choro, nem falando sua ânsia, somente escrevendo e narrando o seu pranto e mórbido olhar. Não há gesto de ternura que justifique uma palavra escrita em vão, ou relatada erroneamente, não há verbo falado que interprete um amor partido ao meio, nem os orvalhos de uma manhã. Não já palavra que datilografe a estação de outono, somente a escrita das folhas secas e perdidas.
O céu plúmbeo não se pode manifestar-se através de uma simples frase, ou de um suspiro mal dado. Ele se rascunha, se prontifica a ser deixado em papel em branco, rabiscado, memorizado na lembrança de uma escritora. E a escritora sou eu, a intérprete dos pássaros mortos sou eu, a dona das palavras dardejadas ao mármore sou eu, sempre foi. Sou como o ponto final de um texto que se apagou, a vírgula que paramos para respirar no meio do conto e o espaço entre as palavras de um livro que não tem epílogo, nem prólogo, nem capítulo. Sou o falecimento da noite, a beldade do crepúsculo. Sou poeta datilógrafa.                                                                                                                                                                                      

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